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sábado, 9 de abril de 2011

A ESTÉTICA E A INDÚSTRIA CULTURAL

O texto A Indústria Cultural, de Adorno e Horkheimer, foi escrito em 1947 - logo após o fim da 2ª Guerra Mundial, portanto. Trata-se de uma análise crítica sobre a lógica cultural do sistema capitalista (que eles vão chamar de "indústria cultural") e da sociedade de mercado.

Os autores fazem parte do que se convencionou chamar de Escola de Frankfurt, da qual fizeram parte estudiosos de tendências marxistas que se encontram no final dos anos 1920. A Escola está associada à chamada Teoria Crítica da Sociedade. 

Conceitos de grande circulação nos estudos de Estética da Comunicação de Massa (como a expressão "cultura de massa" e a própria idéia de "indústria cultural") são tributárias desses estudiosos.

Entre os autores mais conhecidos entre nós, além de Adorno e Horkheimer, estão:

Walter Benjamin: autor do famoso A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica, que dispensa apresentações, sobretudo porque já estudamos esse texto no semestre passado, em Teorias da Comunicação.

Herbert Marcuse: autor de A ideologia da sociedade industrial (1964), obra que denuncia aspectos totalitários dos dois regimes que, à época, confrontavam-se na Guerra Fria - o comunismo soviético e o capitalismo norte-americano.

Erich Fromm: cujas obras mais famosas talvez sejam a trilogia O medo à liberdade, Análise do homem e Psicanálise da sociedade contemporânea. Fromm é também autor de Ter ou ser?, obra em que analisa aspectos do comportamento de consumo.

Habermas: autor de O Discurso Filosófico da Modernidade, é herdeiro das discussões de Frankfurt. Foi colaborador de Adorno, entre 1956 e 59, no Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt.

Para os que tiverem maiores interesses no assunto, recomendo:

HORKHEIMER, Max, ADORNO, Theodor. Dialética do Esclarecimento. Trad. Guido de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

JAMESON, Friedric. O Marxismo Tardio - Adorno, ou a persistência da dialética. Trad. Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: Boitempo, 1997.

WIGGERSHAUS, Rolf. Escola de Frankfurt - História, desenvolvimento teórico, significação política. Trad. Vera de A. Harvey. Rio de Janeiro: Difeel, 2002.

A ESTÉTICA E O ESTATUTO DA ARTE NO SÉCULO XX

- As últimas décadas do século 19 trouxeram rupturas fundamentais que alteraram radicalmente a História da Arte. No campo da produção artística, uma das principais marcas foi o questionamento dos modelos valorizados pela academia, desde o Renascimento.

- As mudanças nos planos socioeconômico e político, a filosofia moderna e as inquietações de artistas e personalidades envolvidas no campo da arte contribuíram para o que depois ficou conhecido como as Vanguardas Européias – movimentos que abriram o séc. 20, trazendo a marca desses questionamentos do final do século anterior.

- As gerações anteriores (impressionistas, pós-impressionistas e realistas) deixaram, para o séc. 20, a herança da vontade de transformação artística, embrião da arte moderna.

- São considerados particularmente decisivos nomes como:
  • Paul Cézanne (1839-1906), que pregava uma obsessiva objetividade no modo de perceber o mundo. 
  • Georges Seraut (1859 -1891), que desenvolveu uma percepção científica de sua época, incorporando, às suas obras, estudos de ótica e cor. Além disso, é considerado um estudioso da arte, em função de suas pesquisas e descobertas estéticas. 
  • Van Gogh (1853-1890), que hoje é considerado um pioneiro na associação das tendências impressionistas com as principais aspirações modernistas. Sua obra é profundamente marcada por seu próprio estado psico-emocional, o que o fez alternar técnicas e estilos ao longo de sua vida artística.
AS VANGUARDAS EUROPÉIAS

O termo “vanguarda” vem do francês Avant Garde (guarda avante), referindo-se ao batalhão militar que antecede as tropas em ataque. No campo da arte, vanguarda é aquilo que “está à frente”.

Trata-se de uma série de movimentos artísticos e políticos da transição do séc. 19 para o séc. 20. Esses movimentos se consideravam guias para a cultura de seu tempo, colocando-se sempre à frente. Algumas vanguardas chegaram a assumir um caráter político partidário, desenvolvendo a militância, lançando manifestos e alimentando a crença de que portavam “a verdade”.

A expressão passou a circular na década de 1860, n’O Salão dos Recusados (Salon des Refusés), espaço onde expunham os artistas excluídos do Salão de Paris.

Muitos artistas vanguardistas ainda estavam ligados ao movimento realista. Este simpatizava com a promoção do progresso social, considerando os sujeitos ou grupos como responsáveis pelas reformas sociais.

Os artistas também se preocupavam com a experimentação estética (mais associada à forma de expressão).

As vanguardas costumam ser classificadas como positivas e negativas, ainda que movimentos como o expressionismo não se encaixem nessa divisão.
  • Vanguardas positivas: Cubismo, Construtivismo, Neoplasticismo, Suprematismo, Abstracionismo e Concretismo - movimentos artísticos que pregavam a adequação da arte ao novo tipo de sociedade do século 20, em reação ao idealismo romântico. Trata-se de movimentos objetivistas (próximos ao positivismo). 
  • Vanguardas negativas: Surrealismo, Dadaísmo e Futurismo - movimentos artísticos que pregavam a separação entre a arte e a sociedade. Defendiam a indiferença da arte em relação a qualquer elemento exterior a ela própria. Buscavam qualidade técnica e conceitual extremas, sem maiores preocupações com o sentido da mensagem.
No Brasil, grupos como o Pau-Brasil e o Movimento Antropófago (ambos idealizados por Oswald de Andrade) se definiam como vanguardistas. O que veio a se constituir no Modernismo brasileiro recebeu muitas influências das vanguardas européias, o que fica evidente nas apresentações da Semana de Arte Moderna (São Paulo, 1922).

Clique aqui para acessar os slides da aula.

Clique aqui para ler trechos do livro Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro (Gilberto mendonça Teles)

Clique aqui para ler o Manifesto Pau-Brasil

Clique aqui para ler o Manifesto Antropófago

A ESTÉTICA NA MODERNIDADE - KANT e HEGEL

Considerações iniciais:

A estética ganhou autonomia como ciência, destacando-se da metafísica, da lógica e da ética, com a publicação da obra Aesthetica do educador e filósofo alemão Alexander Gottlieb Baumgarten (dois volumes, 1750-1758).

Baumgarten apresenta novas propostas para o estudo da obra de arte:
  • Ao adicionar elementos próprios da esfera do sentimento à realidade percebida, os artistas alteram voluntariamente a Natureza.
  • A própria atividade artística será considerada o espelho do processo criativo.
I) PENSADORES E REFLEXÕES:
IMMANUEL KANT (1724-1804): “Experiência é percepção compreendida”.
- O pensamento de Immanuel Kant contribuiu para epistemologia (1), a partir da síntese que propôs entre o Racionalismo (predomínio do raciocínio dedutivo - Descartes e Leibniz), e o empirismo inglês (valorização do raciocínio indutivo - David Hume, George Berkeley e John Locke.
- Em Crítica da faculdade do juízo, se encontram as principais reflexões kantianas sobre a estética.
Filosofia da natureza e da natureza humana (concepção subjetiva):

“Não pode haver nenhuma regra de gosto objetiva, que determine por meio de conceitos o que seja belo. Pois todo juízo proveniente desta fonte é estético; isto é, o sentimento do sujeito e não o conceito de um objeto é o seu fundamento determinante. Procurar um princípio de gosto, que fornecesse o critério universal do belo através de conceitos determinados, é um esforço infrutífero, porque o que é procurado é impossível e em si mesmo contraditório” (Crítica da Faculdade do Juízo, I, 17).
A obra apresenta alguns elementos decisivos para a compreensão contemporânea do estético:
  • Abertura ao belo como familiaridade e pertença, assim como ao sublime como estranho e incontrolável, aquilo que em grande parte corresponde ao conceito freudiano de unheimlich (2).
  • A abertura à representatibilidade do sem-forma, quer através do simbólico, quer pela persistência no elemento da ausência de forma.
  • A abertura ao artefactual e ao ficcional como materiais preponderantes de uma estética que em grande parte abandona o desejo de mimesis para explorar os domínios do acontecimento sem referência objetivante.
- Concepção transcendental: todo ser humano traz formas de pensamento a priori para a experiência concreta da vida (seriam conceitos prévios, que não se a cumulam com a experiência).
Segundo a doutrina kantiana (idealismo transcendental), os fenômenos da realidade objetiva não se mostram aos homens exatamente como são - ou seja, não aparecem como coisas-em-si, mas como representações subjetivas, construías pela faculdade humana.
- Relativismo conceitual: a filosofia katiana é considerada uma das fontes determinantes do relativismo conceitual que iria predominar no século XX (Mas nada tem a ver com as teorias relativistas do da pós-modernidade).
- Sobre o Juízo estético: para uma investigação crítica sobre o belo, o pensamento deve se orientar pelo poder de julgar. Esse julgamento deve ser impulsionado por uma questão:
Há algum valor universal que conceitue o belo e que determine que outras pessoas compartilhem da minha apreciação de uma forma bela da natureza ou da arte ou todo julgamento sobre o belo é uma valoração subjetiva?
O poder de julgar pertence a todos os sujeitos, ele é universal e congraça o julgamento estético, especulativo e prático. As reflexões críticas de Kant se relacionam com as possibilidades e limitações das faculdades subjetivas que agem sob princípios formulados e que pertencem à essência do pensamento.
- A universalidade do juízo estético: se apresentarmos uma obra de arte a várias pessoas, podemos observar que as impressões causadas serão diferentes. Concluiremos que a observação atenta e valorativa daquela obra, juntamente com as diferentes opiniões que apresentadas pelas pessoas, nos permite afirmar que o gosto pode ser discutido.
Kant vai afirmar que só é possível discutir sobre gosto.
  • A universalidade do juízo estético envolve um exercício persuasivo em relação aos outros sujeitos. É assim que um juízo estético subjetivo se torna um valor universal. Como os sujeitos compartilham princípios de avaliação moral livre, que determinam a avaliação estética, eles julgam o belo como universal.
  • O juízo estético se relaciona com o prazer (ou desprazer) que a obra nos proporciona. Para Kant, o belo “é o que agrada universalmente, sem relação com qualquer conceito”. Assim, não existe uma definição exata sobre o belo, mas um sentimento que é universal e necessário.
HEGEL (1770-1831): “O mais alto objetivo da Arte é o que é comum à Religião e à Filosofia. Tal como estas, é um modo de expressão do divino, das necessidades e exigências mais elevadas do espírito”.- Para Hegel, a arte é a manifestação sensível da idéia.
“A atitude artística se distingue da atitude prática do desejo no sentido de que a arte deixa subsistir seu objeto em liberdade total, enquanto o desejo emprega seu objeto para seu próprio uso, destruindo-o”.
- Em Cursos de Estética (ou simplesmente Estética), estão as principais considerações de Hegel sobre as questões relativas à criação artística. É considerada a primeira obra que combina a reflexão filosófica com uma história da arte.
- Hegel defende o belo artístico como o único com interesse estético. O belo artístico seria um produto do espírito, por isso só pode ser encontrado nos seres humanos e nas obras produzidas por eles.
- A idéia do bem, da verdade e do belo se completam, porque só há uma Idéia . Tudo o que existe contém a Idéia. A estética ocupa-se em primeiro lugar da Idéia do belo artístico como ideal.
- O belo, que do objeto aparece no sujeito, é “em si mesmo infinito e livre”.-
-Hegel defende uma visão idealista do belo.
- Para ele, cada uma das formas artes tem um lugar próprio na história do espírito e cumpre uma etapa no processo do autoconhecimento humano, mediante seu modo de configuração relacionado a uma determinada matéria.
- Na arte o espírito tem intuição, em um objeto sensível, da sua essência absoluta. Assim, o belo é a idéia concretizada sensivelmente. Portanto, no momento estético, o infinito é visto como finito.
Clique aqui para acessar o texto Méritos e falhas da Estética hegeliana, de Kathrin H. Rosenfield.
NOTAS
(1) Teoria do conhecimento ou Filosofia do conhecimento, a epistemologia é o ramo da filosofia que aborda as questões relacionadas ao conhecimento e às crenças, a partir da compreensão da origem, da estrutura, dos métodos e da validade do conhecimento.
(2) Referência ao texto "Das Unheimliche", publicado por Freud em 1919, traduzido aqui como "O estranhamente familiar" ou "O estranho familiar": "Chama-se unheimlich tudo o que deveria permanecer secreto, escondido, e se manifesta" (clique aqui para ler sobre esse texto).

terça-feira, 22 de março de 2011

REFLEXÕES SOBRE A ARTE NA IDADE MÉDIA E NO RENASCIMENTO



Fonte: GOMBRICH, 2000.

1) IDADE MÉDIA

"Até o fim do século XVI, a semelhança desempenhou um papel construtor no saber da cultura ocidental. Foi ela que, em grande parte, conduziu a exegese e a interpretação dos textos: foi ela que organizou o jogo dos símbolos, permitiu o conhecimento das coisas visíveis e invisíveis, guiou a arte de representá-las. O mundo enrolava-se sobre si mesmo: a terra repetindo o céu, os rostos mirando-se nas estrelas e a erva envolvendo nas suas hastes os segredos que serviam ao homem. A pintura imitava o espaço. E a representação — fosse ela festa ou saber — se dava como repetição: teatro da vida ou espelho do mundo, tal era o título de toda linguagem, sua maneira de anunciar-se e de formular seu direito de falar". (FOUCAULT, 2000)

Dentro da divisão esquematizada pelos historiadores (para a história do Ocidente, particularmente da Europa), a Idade Média corresponde ao período entre o séc. V e segunda metade do séc. XV.

Essa divisão está calcada em eventos políticos que provocaram alterações significativas na história do Ocidente. Assim, a delimitação de tempo denominada como Era Medieval corresponde ao período que vai da queda do Império Romano (ou do último imperador romano, Rômulo Augusto), em 476 d.C. (séc. V) até a descoberta da América, em 1492 (segunda metade do séc. XV).

Durante esse período, a produção artística (assim como boa parte da vida política e social) esteve profundamente ligada ao projeto de disseminação do Cristianismo europeu. Como o analfabetismo era a realidade da maioria dos camponeses, as artes visuais constituíam, ao lado dos sermões, meios ideais para propagar os fundamentos religiosos.

A Igreja Católica já era, àquela altura, uma instituição muito rica, tendo condições, portanto, de remunerar o trabalho dos artistas. A profusão de obras com temática religiosa (cristã) datadas desse período está relacionada a esse fato.

ASPECTOS DA PRODUÇÃO ARTÍSTICA


  • Uma das características da pintura medieval é a bidimensionalidade, em razão da ausência da noção de perspectiva (os historiadores da arte afirmam que, com a queda do Império Romano, muitas técnicas artísticas desenvolvidas pelos gregos, por exemplo, se perderam).
  • Em função disso, o tamanho das personagens, nas artes visuais, estava associado ao seu status simbólico, não tendo qualquer relação com a posição do observador ou dos elementos da tela.
  • Frequentemente, o trabalho artístico se produzia de modo coletivo ou anônimo. Por essa razão, há dificuldade em identificar artistas individuais do período medieval (*).
A imagem abaixo, que representa duas produções sobre o mesmo tema, uma renascentista e outra medieval, ilustra tanto o aspecto da bidimensionalidade quanto o aspecto relativo à "autoria anônima" da obra.

Fonte: GOMBRICH, 2000.

2) RENASCIMENTO

O período conhecido, na história ocidental, como Renascimento está demarcado a partir das manifestações culturais do séc. XIV, na Itália, com posterior difusão no resto da Europa no decorrer dos séculos XV e XVI.

O conceito vem da palavra italiana renascitá - acreditava-se que o período anterior havia sido um longa noite gótica, um período de trevas.

Mas Gombrich esclarece melhor essa história:

"A palavra renascença significa nascer novamente ou ressurgir, e a idéia de tal renascimento ganhou terreno na Itália desde o tempo de Giotto. Quando as pessoas desse período queriam elogiar um poeta ou um artista, diziam que sua obra era tão boa quanto a dos antigos. Giotto fora exaltado assim como um mestre que tinha liderado um verdadeiro ressurgimento da arte: as pessoas queriam significar com isso que a arte de Giotto era tão boa quanto a daqueles famosos mestres cujas obras encontravam louvadas nos autores antigos da Grécia e de Roma. Não surpreende que essa idéia se tornasse popular na Itália. Os italianos estavam perfeitamente cônscios de que, num passado distante, a Itália, tendo Roma por capital, fora o centro do mundo civilizado, e que seu poder e glória se dissipara quando as tribos germânicas, godos e vândalos, invadiram o país e desmantelaram o Império Romano. A idéia de um renascimento associava-se na mente dos romanos à idéia de uma ressurreição da 'grandeza de Roma'. O período entre a idade clássica, para a qual voltavam os olhos com orgulho, e a nova era de renascença, que aguardavam com esperança, era meramente um melancólico interregno. 'O Período Intemédio'. Assim, a idéia de uma renascença foi responsável pela idéia de que o período interposto era uma Idade Média — e ainda usamos essa terminologia. Como os italianos culpavam os godos pela queda do Império Romano, começaram a se referir à arte desse período intermediário como arte gótica, com o que pretendiam significar bárbara — tal como hoje falamos do vandalismo quando nos referimos à destruição inútil de belas coisas".

O Renascimento se desenvolveu na Filosofia, nas Artes, nas Ciências e na Astronomia, a partir de transformações culturais, sociais, econômicas, políticas e religiosas decorrentes da transição do Feudalismo para o Capitalismo.

A Renascença, como também se costuma chamar a esse período, está profundamente ligada ao humanismo, a partir do interesse dos intelectuais europeus pelas referências clássicas greco-romanas, anteriores à expansão do Cristianismo.

Alguns dos valores e ideais difundidos pelo Renascimento:

Antropocentrismo: o homem deve estar no centro dos interesses da humanidade.
Hedonismo: o prazer imediato e individual é o bem supremo da vida humana.
Racionalismo: o raciocínio, como operação mental, discursiva e lógica, deve usar proposições para alcançar as conclusões verdadeiras, falsas ou prováveis.
Otimismo: forma de pensamento contrária ao pessimismo que o Renascimento credita à Idade Média.
Individualismo: exprime a afirmação e liberdade do indivíduo frente à sociedade ou ao Estado.

ASPECTOS DA PRODUÇÃO ARTÍSTICA
  • No campo das artes, se propôs, pela primeira vez, uma visão leiga das obras religiosas (estudo lógico e literário da Bíblia, por exemplo).
  • Houve uma valorização do abstrato, expresso principalmente pelo conhecimento matemático
  • Desenvolvem-se algumas inovações na produção artística, como o advento da pintura a óleo.
  • Desenvolvem-se ainda certos aspectos fundamentais para a produção das artes visuais, como as noções de proporção e de profundidade, assim como a representação do corpo humano a partir do estudo rigoroso da anatomia.
"Sabemos muito bem que, em arte, não podemos falar de progresso na acepção em que falamos do progresso do saber. Uma obra de arte gótica pode ser tão grande quanto uma obra da Renascença. Não obstante, talvez seja natural que para as pessoas desse tempo, que entraram em contato com as obras-primas do Sul, sua própria arte tenha parecido subitamente obsoleta e grosseira. Foram três as realizações tangíveis dos mestres italianos para as quais eles podiam apontar. Uma foi a descoberta da perspectiva científica, a segunda o conhecimento de anatomia – e, concomitantemente, a representação perfeita do belo corpo humano – e, em terceiro lugar, o conhecimento das formas clássicas de construção, as quais pareciam simbolizar, para as pessoas desse período, tudo o que era digno e belo". (GOMBRICH, 2000)


(*) Vale lembrar que a figura do autor - como instância produtora dos sentidos da obra - só vai se desenvolver depois, sobretudo com a consolidação da imprensa. Quem quiser entender melhor como se configura esse fenômeno, no campo das artes, pode acessar aqui o artigo de Daniela Beccaccia Versiani, intitulado "Considerações sobre a noção de autor", publicado na Revista Literatura em Debate, v.3, n.4, p. 1-20, 2009.

REFERÊNCIAS


FOUCAULT, Michel. A prosa do mundo. In: As palavras e as coisas. 8 ed., 2 tiragem. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

GOMBRICH, Ernest H. História da arte. 16 ed. Rio de Janeiro: LTC, 2000.

VERSIANI, Daniela Beccaccia. Considerações sobre a noção de autor. Revista Literatura em Debate, v.3, n.4, 2009, p.1-20.


terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

INTRODUÇÃO À ESTÉTICA

I) DEFINIÇÕES

Etimologia: a palavra Estética vem do grego αισθητική (aesthésis) e significa perceber, sentir.

O Dicionário Houaiss registra 4 acepções gerais para o termo "estética":
1 Rubrica: filosofia - parte da filosofia voltada para a reflexão a respeito da beleza sensível e do fenômeno artístico.
1.1 Rubrica: filosofia - segundo o criador do termo, o filósofo alemão Alexander Baumgarten (1714-1762), ciência das faculdades sensitivas humanas, investigadas em sua função cognitiva particular, cuja perfeição consiste na captação da beleza e das formas artísticas.
1.2 Rubrica: filosofia - no kantismo, estudo dos juízos por meio dos quais os seres humanos afirmam que determinado objeto artístico ou natural desperta universalmente um sentimento de beleza ou sublimidade.
1.3 Rubrica: filosofia - no hegelianismo, estudo da beleza artística, que apresenta em imagens sensoriais, ou representações sensíveis, a verdade do espírito, do princípio divino, ou da idéia.
2 Harmonia das formas e/ou das cores; beleza
Ex.: a estética de uma escultura de Giacometti

3 Ramo ou atividade profissional que tem por fim corrigir problemas cutâneos, capilares etc., assim como conservar ou dar mais viço à beleza física de uma pessoa, por meio de tratamentos especiais (p.ex., limpeza de pele, emagrecimento etc.)
Ex.: clínica de estética.
4 Uso: informal
aparência física; plástica
Ex.: dispensa muitos cuidados à sua estética.
  • Podemos acrescentar ainda outra acepção ao termo – a palavra estética é ainda utilizada em referência às tendências artísticas e/ou comportamentais de uma época.
Para Marilena Chauí, o termo estética comporta 4 acepções:
  • Estudo das formas de arte, do trabalho artístico;
  • Idéia de obra de arte e de criação;
  • Relação entre matéria e forma nas artes;
  • Relação entre arte e sociedade, arte e política, arte e ética. (p.410)
Para Umberto Eco, a estética é uma disciplina “capaz de criar métodos e instrumentos de investigação próprios, mas não é uma ciência exata” (p.56).

Para Pareyson, “a estética tem, com a crítica e a história da arte, relações análogas àquelas que tem com a própria arte, no sentido de que, referindo-se à experiência estética para explicá-la filosoficamente e dela tirar estímulo e comprovação, encontra nela tanto a prática da arte quanto o exercício da leitura, da crítica e da história que dela se fazem” (p. 12-13).

  • Segundo registra a história, foi Platão (428-347 a.C.) quem formulou os primeiros questionamentos sobre a natureza do belo.
  • Mas foi Aristóteles (384-322 a.C.) quem primeiro sistematizou uma reflexão sobre a arte, em sua obra Arte Poética (ou A Poética).
II) SITUAÇÃO DISCIPLINAR:

Ramo da filosofia que estuda a natureza os fundamentos da arte, em especial a natureza do belo. Costuma-se assinalar a publicação de Aesthetica (1750), de Alexander Gottlieb Baumgarten, como marco da autonomia da Estética como disciplina. Foi Baumgarten quem ministrou o primeiro curso de estética de que se tem notícia, em 1742 na universidade de Halle. Ele usou pela primeira vez o termo estética, para designar a ciência que trata do conhecimento sensorial que chega à apreensão do belo e se expressa nas imagens da arte, em oposição à Lógica como ciência do saber cognitivo.

Como disciplina, a estética destina-se ao estudo das regras da arte (a natureza os fundamentos da arte), das leis do belo (as diferentes concepções sobre o conceito de “belo” na idéia de obra de arte e de criação) e do código de Gosto (o julgamento e as emoções estéticas ).

Para Marilena Chauí, ESTÉTICA ou FILOSOFIA DAS ARTES é o "estudo das formas de arte, do trabalho artístico; idéia de obra de arte e de criação; relação entre matéria e forma nas artes; relação entre arte e sociedade, arte e política, arte e ética". (p.410)

- A FILOSOFIA NA HISTÓRIA (CHAUÍ, p.52)


Como todas as outras criações e instituições humanas, a Filosofia está na História e tem uma história.
a) Está na História: a Filosofia manifesta e exprime os problemas e as questões que, em cada época de uma sociedade, os homens colocam para si mesmos, diante do que é novo e ainda não foi compreendido. A Filosofia procura enfrentar essa novidade, oferecendo caminhos, respostas e, sobretudo, propondo novas perguntas, num diálogo permanente com a sociedade e a cultura de seu tempo, do qual ela faz parte.
b) Tem uma história: as respostas, as soluções e as novas perguntas que os filósofos de uma época oferecem tornam-se saberes adquiridos que outros filósofos prosseguem ou, freqüentemente, tornam-se novos problemas que outros filósofos tentam resolver, seja proveitando o passado filosófico, seja criticando-o e refutando-o. Além disso, as transformações nos modos de conhecer podem ampliar os campos de investigação da Filosofia, fazendo surgir novas disciplinas filosóficas, como também podem diminuir esses campos, porque alguns de seus conhecimentos podem desligar-se dela e formar disciplinas separadas.

Assim, por exemplo, a Filosofia teve seu campo de atividade aumentado quando, no século XVIII, surge a filosofia da arte ou estética; no século XIX, a filosofia da história; no século XX, a filosofia das ciências ou epistemologia, e a filosofia da linguagem. Por outro lado, o campo da Filosofia diminuiu quando as ciências particulares que dela faziam parte foram-se desligando para constituir suas próprias esferas de investigação. É o que acontece, por exemplo, no século XVIII, quando se desligam da Filosofia a biologia, a física e a química; e, no século XX, as chamadas ciências humanas (psicologia, antropologia, história).

Pelo fato de estar na História e ter uma história, a Filosofia costuma ser apresentada em grandes períodos que acompanham, às vezes de maneira mais próxima, às vezes de maneira mais distante, os períodos em que os historiadores dividem a História da sociedade ocidental.

Referências

CAHUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 7. ed. 2. reimp. São Paulo: Ática, 2000.
DICIONÁRIO HOUAISS da Língua Portuguesa. Disponível em: http://houaiss.uol.com.br.
ECO, Umberto. Obra aberta. São Paulo: Perspectiva, 1988.
JIMENEZ, Marc. O que é estética. Trad. Flávia Moretto. São Leopoldo-RS: EdUnisinos, 1999.
PAREYSON, Luigi. Os problemas da estética. São Paulo: Martins Fontes,1989.

NOMES REFERENCIAIS PARA A ESTÉTICA

Max Horkheimer (1895 - 1973)


Filósofo alemão nascido em Stuttgart, Alemanha, principal pensador da teoria crítica na década que precedeu a II Guerra Mundial. Como todos os intelectuais da Escola de Frankfurt, era judeu de origem. Cursou o Gymnasium em Handelslehre (1911-1915) e estudou psicologia e filosofia em München, Freiburg im Breisgau e em Frankfurt/Main (1919-1922). Influenciado por seu amigo Friedrich Pollock, decidiu dedicar-se à filosofia e associou-se (1923), juntamente com Theodor Adorno, à criação do Instituto de Pesquisas Sociais, dedicado à pesquisa interdisciplinar entre filósofos, sociólogos, estetas, economistas e psicólogos - nós conhecemos essa associação pelo nome de Escola de Frankfurt* - da qual Horkheimer foi diretor (1931) sucedendo o historiador austríaco Carl Grünberg. Publicou (1947) os livros Eclipse of Reason e Dialektik der Aufklärung (este último em parceria com Adorno). Publicou ainda Studies in Prejudice (1949) e retornou para a Alemanha, para reassumir a cadeira de filosofia em Frankfurt e reconstruir o Instituto. Foi reitor da universidade local (1951-1953). Septuagenário, voltou a ficar em evidência como um dos inspiradores do movimento estudantil que abalou a França e boa parte do mundo. Publicou também Traditionelle und kritische Theorie (1970). Faleceu em Nuremberg, aos 78 anos.

* A Escola de Frankfurt lançou os fundamentos da teoria crítica - conjunto de idéias sobre a cultura contemporânea, baseadas no marxismo. Esta escola constituiu o núcleo de uma linha original de pensamento filosófico-político desenvolvido por Walter Benjamim, Max Horkheimer, Herbert Marcuse, Wilhelm Reich, Jürgen Habermas e Theodor Adorno.

Theodor Wiesengrund Adorno (1906 - 1969)


Filósofo, compositor e crítico musical alemão, nascido em Frankfurt-sobre-o-Meno. É mais conhecido entre nós por suas críticas à mercantilização da arte contemporânea. Filósofo e crítico musical, estudou composição em Viena com Alban Berg, uma das figuras que mais contribuíram para o amadurecimento da música atonal. Foi professor em Frankfurt, onde doutorou-se; ainda em Frankfurt, participou da fundação do Instituto de Pesquisas Sociais. Emigrou para a Inglaterra (1933), para escapar da perseguição aos judeus promovida pelo nacional-socialismo alemão. Em 1937, foi para os Estados Unidos, onde colaborou decisivamente com o Instituto, reconstituído por seus fundadores na Universidade de Columbia. De volta à à Alemanha, em 1949, retomou as atividades docentes e participou intensamente da vida política e cultural do país. Participou também dos movimentos estudantis na Europa, em 1968. Seus escritos filosóficos e musicais apresentavam um conteúdo sociológico; assim, produziu algumas das obras fundamentais do pensamento estético, como a Dialéktik der Aufklärung (com Horkheimer), Philosophie der neuen Musik (1949) e a obra inacabada Ästhetische Theorie (1970).

Alexander Gottlieb Baumgarten (1714 - 1762)

Filósofo alemão nascido em Berlim, criador do vocábulo Aesthetica (=estética). Ensinou nas Universidades de Halle e em Frankfurt e escreveu em latim sua obra mais notável Aesthetica (1750-1758), onde descreveu o conceito da nova palavra. Foi professor de filosofia da Universidade de Franfurt-sobre-o-Oder (1740), permanecendo por 22 anos, até sua morte relativamente prematura. Em seu trabalho Meditações filosóficas sobre algumas questões da obra poética (1735) introduziu o termo estética, no estrito significado dessa palavra hoje. Não foi o fundador da estética como ciência, mas a proposta da utilização do termo funcionou para as demandas da pesquisa desta área do saber. É autor de várias outras obras sobre lógica, ética e teologia, a exemplo de Métaphysique (1739), Aesthetica (1750-1758), Disputationes de nonnulis ad poema pertinentibus (1735), Ethica philosophica (1740). Kant utilizou seus livros como texto de aulas, bem como o termo estética, como denominação para o estudo gnosiológico da sensação e de suas formas apriorísticas de espaço e tempo (denominada como Estética transcendental).

OUTRAS REFERÊNCIAS

Além da bibliografia citada no programa, eventualmente poderemos trabalhar com outros textos. Nesse caso, disponibilizarei esse material aqui, na xerox e/ou no portal. Trata-se de textos digitalizados, que funcionarão como material de apoio. Cuidarei para que todos tenham acesso a eles.

Por outro lado, há vários textos que podem ser citados em sala, mas que não serão trabalhados diretamente, por absoluta falta de tempo. Sempre que possível, colocarei aqui as referências. Aí vão, por exemplo, alguns endereços:

FOUCAULT. Michel As Palavras e as Coisas: uma Arqueologia das Ciências Humanas. 2. ed. São Paulo, Martins Fontes, 1981.

- De um modo geral, o livro coloca questões acerca de como percebemos as linguagens e como elas representam e ao mesmo tempo constroem visões de mundo. Foucault faz uma leitura das relações entre poder e saber e das visões de mundo (episteme) que perpassaram a história das representações no Ocidente.

- Pensando no modo como o programa da disciplina foi organizado, recomendo a leitura de três capítulos: "Las meninas", que analisa o famoso quadro de Velásquez; "A prosa do mundo", "D. Quixote".

- Para entender melhor a noção de episteme, recomendo o prefácio do livro. Há ainda um artigo bem bacana (de uma pesquisadora chamada Iara Guazzelli), que pode ser acessado no seguinte link:


SANTIAGO, Silviano. A democratização no Brasil: cultura versus arte. In: O cosmopolitismo do pobre: crítica literária e crítica cultural. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2004. p.134-156.

- Se der tempo, gostaria de inserir esse texto no programa. Trata-se de uma reflexão sobre o campo das artes e da cultura brasileiras, em que Silviano Santiago vai mapear as opções discursivas ou posicionamentos do intelectual brasileiro, a partir de um recorte: o período entre 1979 e 1981. Para ele, esse é o
momento, no Brasil, da transição do século XX para o seu fim. Isso por conta das mudanças ocorridas nesses campos.

- O autor analisa
o cenário artístico e cultural do Brasil no momento de transição da ditadura para o processo de democratização que se anunciava no País.

- Nesse momento, por exemplo, o autor registra um deslizamento nas formas como se narrava o Brasil, no campo da arte: de uma perspectiva literária e sociológica, deslizou-se para um terreno cultural e antropológico (acho que falei um pouco sobre isso no final da aula, mas não estava particularmente do caso restrito do Brasil).

- O texto está disponível na rede e pode ser acessado no endereço abaixo (atenção pois ele aparece com outro título: "Crítica cultural, crítica literária: desafios do fim de século"), mas é o mesmo artigo.
http://www.pacc.ufrj.br/literaria/critica.html

- Para quem se interessar pelo autor, a página tem ainda outros textos dele e sobre ele. O link: http://www.pacc.ufrj.br/literaria/silvart.html


AUERBACH, Eric.
Mimesis:
a representação da realidade na literatura ocidental. São Paulo: EdUSP; Perspectiva, 1971.

- A obra foi escrita no período em que Auerbach esteve exiliado na Turquia, fugindo do nazismo (ele era judeu). Trata-se da leitura de textos clássicos da literatura, e por isso não participará diretamente da nossa bibliografia. É possível, entretanto, entender os modos como a literatura representou a realidade e por que hoje a realidade se narra muito mais por outras formas de arte, notadamente ligadas à comunicação.